Publicado: 04/08/2026
Foi se alimentando de cana-de-açúcar, laranjas doadas por desconhecidos e água pedida em postos de combustíveis que o ex-maratonista olímpico Daniel Nascimento caminhou cerca de 400 quilômetros entre o oeste do estado de São Paulo e a capital paulista, durante boa parte dos 43 dias em que esteve desaparecido.
Em um vídeo gravado por um guarda da Guarda Civil Metropolitana (GCM), o ex-atleta, suspenso por doping, contou que caminhou até a capital paulista e explicou como conseguiu sobreviver durante o período.
— Só chupando uma cana. Pedi de vez em quando. Uma laranja ainda para chupar. E depois, quando passava perto do posto de gasolina, tinha que tomar uma água. Mas só levava uma garrafinha, depois tinha que jogar água. Chegou um momento que estava parecendo um camelo.
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Daniel Nascimento relata como sobreviveu desaparecido: “Só chupando uma cana” — Foto: Tião Moreira / Revista Contra-Relógio
Daniel deixou a casa da mãe, em Paraguaçu Paulista, no dia 19 de junho, levando apenas uma mochila, a roupa do corpo e um boné. 43 dias depois, foi encontrado no bairro do Belém, em São Paulo, após ser reconhecido por um pedestre na rua Ubaldino do Amaral.
O homem acionou a Guarda Civil Metropolitana, que confirmou a identidade do atleta. Daniel aparentava estar bem fisicamente e foi encaminhado ao 30º Distrito Policial, no Tatuapé, onde reencontrou a família.
Durante o período em que permaneceu na capital, Daniel apresentava aspecto de morador em situação de rua. Segundo a família, ele recolhia materiais recicláveis para conseguir algum dinheiro e passava as noites em albergues públicos.
Até então, o que havia acontecido durante os dias em que esteve desaparecido era um mistério. No vídeo gravado pela GCM, Daniel também falou sobre a forma como observava o próprio corpo durante a caminhada, comparando a experiência com a rotina de um corredor.
— Estava igual ao camelo. É legal que eu conseguia estabilizar o corpo até para a questão de hidratação. É porque eu gosto de estudar você mesmo, até mesmo a sua própria mente. Igual quando você está dirigindo um carro aqui, você vai indo em uma estrada aqui, ele vai pisando, vai tranquilo. Agora o corredor não, você vai sentindo no corpo, você vai sentindo a brisa, o seu coração.
Após o reencontro, Daniel retornou ao convívio da família e foi encaminhado para uma clínica, onde iniciou tratamento psicológico. A expectativa é que, nos próximos dias, ele seja transferido para uma unidade no interior de São Paulo, próxima à casa da família, para dar continuidade ao acompanhamento.
A mãe do ex-maratonista, Walvirene, contou ao ge que Daniel passou a enfrentar problemas psicológicos após a suspensão por doping. Segundo ela, o afastamento das pistas desencadeou um quadro de depressão que culminou no desaparecimento.
Em outro trecho do vídeo, o próprio Daniel falou sobre a relação que tinha com o atletismo.
— Era uma coisa que eu mais amava, que eu sentia, sim. É o que me fazia acordar todo dia de manhã cedo. Você poder gastar a energia e pode retornar para a sua casa.
Emocionada, Walvirene também falou sobre o filho após o reencontro.
— É… Esse aqui é o mais parecido comigo, né? Forte, guerreiro, né? Esperto.
Relembre o caso
Daniel estava desaparecido desde o dia 19 de junho. Cerca de um mês depois, a família recorreu às redes sociais para pedir informações sobre o paradeiro do atleta. No dia seguinte à publicação, o maratonista completou 28 anos, sem conseguir comemorar a data ao lado dos familiares.
A partir daí, uma corrente de compartilhamentos tomou conta das redes sociais na tentativa de localizar o corredor, que morava com a mãe em Paraguaçu Paulista, no interior de São Paulo. Ele deixou a casa da família levando apenas uma mochila e, desde então, não havia dado notícias.
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Maratonista Daniel Nascimento está desaparecido desde 19 de junho, diz família — Foto: Reprodução/ Instagram
Segundo a família, Daniel enfrenta um quadro de depressão desde o caso de doping que interrompeu sua carreira em 2025. O afastamento das pistas desencadeou o agravamento do quadro psicológico, que culminou no desaparecimento.
Em maio de 2025, a Unidade de Integridade do Atletismo (AIU), órgão independente responsável pelo controle antidopagem da modalidade, suspendeu Daniel Nascimento por cinco anos após o brasileiro testar positivo para três esteroides anabolizantes (drostanolona, metenolona e nandrolona) em exames realizados fora de competição às vésperas dos Jogos Olímpicos de Paris. A punição passou a valer de forma retroativa a 15 de julho de 2024, deixando o atleta impedido de competir até julho de 2029.
A AIU também anulou todos os resultados obtidos por Daniel desde 4 de julho de 2024. Inicialmente, a pena chegou a seis anos devido às circunstâncias agravantes apontadas pela entidade, mas foi reduzida para cinco porque o maratonista reconheceu a violação do código antidopagem. Apesar da punição, ele segue como recordista sul-americano da maratona, com a marca de 2h04min51s.
Com: Vitrine do Cariri.
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